Atividades artísticas, em muitas escolas, até hoje são vistas como meramente recreativas. Algumas experiências em colégios públicos e privados mostram, no entanto, que elas podem ser também ferramentas valiosas de melhoraria do aprendizado.
Evelyn Ioschpe, diretora da Fundação Iochpe, que organiza o prêmio Arte na Escola, diz que não há pesquisas no Brasil que investiguem a relação entre o ensino de artes e o desempenho em disciplinas tradicionais. "Mas temos hoje quantidade suficiente de pesquisas internacionais que indicam que a arte efetivamente tem impacto no ensino de língua e matemática."
Ela cita, como exemplo, um estudo realizado pelo museu Guggenheim, de Nova York, com alunos de escolas públicas que participam de um projeto da instituição e registraram melhorias em testes de linguagem. Num contexto em que várias escolas estavam cortando aulas de arte para privilegiar o ensino de linguagem e matemática em Nova York, o trabalho foi usado para defender a permanência dessas atividades no currículo.
Segundo Evelyn, os estudos mostram que, mesmo quando a aula de artes acontece de forma isolada numa Escola, há ganhos. Mas o ideal, diz ela, é que o trabalho seja interdisciplinar. O problema é que muitas Escolas no Brasil não estão ainda preparadas para atuar assim, pois isso exige que o professor de arte tenha tempo para encontrar os colegas de outras áreas para discutir abordagens em conjunto.
A coordenadora de artes da Escola Castanheiras, em Tamboré (Grande SP), Tatiana Fecchio, acrescenta que, além de tempo, é preciso criatividade para integrar as aulas de arte com as demais. Ela cita o exemplo de um trabalho desenvolvido com alunos que estavam discutindo o registro científico em aulas de ciências. "Propusemos então que eles desenvolvessem uma atividade com cebolas, fazendo um desenho com a preocupação científica de descrever um objeto, e depois um desenho artístico abstrato. Isto resultou numa exposição cujo objetivo era confrontar duas formas de registro distintas."
Novas Leis
O debate sobre como utilizar a arte como ferramenta pedagógica se intensifica com a proximidade do fim do prazo de três anos dado pela lei 11.769, de 2008, para incluir música no currículo. Além disso, neste mês o presidente Lula sancionou lei que reforça a obrigação do ensino da arte na Educação básica, com ênfase especial em expressões regionais.
No entanto, para Eugenio Figueroa, diretor de arte e Educação da Casa Daros, entidade que organizou há dois anos um seminário sobre arte e analfabetismo funcional, não será por força de uma lei que as Escolas desenvolverão bons projetos na área. "A Escola precisa menos de um professor de arte como disciplina e mais de docentes que estimulem a curiosidade e o espírito de criação em cada criança. O mais interessante é mergulhar na prática artística, entendida como um processo de pesquisa permanente", afirma.
Fonte: O Estado de S. Paulo (publicado em 26/07/10)
Publicado 28/07/10