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Entrevistas
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» “Aprendi com eles que o mais importante é ensinar a respeitar o outro”

Em nosso país, ainda existem significativas barreiras aos caminhos que nos levam à ampliação do acesso aos direitos fundamentais como o direito à educação e ao trabalho. Nesse sentido, a inclusão de pessoas com deficiência nas mais variadas esferas sociais é pauta de debate indispensável para construirmos uma ideia de sociedade mais justa e menos desigual.

Há três anos como educadora do programa Aprendiz Legal no município de Barra Mansa (RJ), Cleize Trece recebeu seu maior desafio logo no momento de sua contratação: incluir dois aprendizes com deficiência intelectual. Na entrevista abaixo, ela fala sobre as soluções de trabalho que encontrou no dia a dia, ressaltando a experiência enriquecedora que viveu. Em setembro próximo, Cleize conta que receberá em uma de suas turmas mais um aprendiz com necessidades especiais. “A questão está ganhando espaço, devagarzinho, aqui na região”, comemora a instrutora.
 

Como você reagiu ao saber do ingresso de jovens com deficiência em uma de suas turmas de aprendizes?

Eu tinha apenas duas turmas e nove aprendizes quando recebi com muito entusiasmo a notícia da chegada de mais 12 jovens. O susto foi quando me informaram que neste grupo havia dois deles com Síndrome de Down. Começou então a minha busca por qualquer tipo de informação sobre a síndrome, na tentativa ingênua de montar uma espécie de manual que pudesse me dizer como deveria tratar estes novos aprendizes.

Convidei, assim, uma especialista em inclusão para conversar com os demais aprendizes da turma sobre como receber e incluir seus novos e especiais colegas.

E o primeiro contato entre a turma e os novos colegas, como se deu?

Finalmente havia chegado o dia! Lá estavam eles: Jackson, de 21 anos, sorridente e muito falante. Jhonathan, de 23 anos, “caladão” e muito sério. Mas algo estava errado: eles não tinham “cara” de Síndrome de Down. Sua fisionomia não era como as das pessoas com Down que eu conhecia. Fui em busca de ajuda na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) da cidade, que atendia os jovens desde pequenos e descobri que, na verdade, nenhum dos dois tinha Síndrome de Down. Eles nasceram com Encefalopatia Crônica da Infância, uma patologia que pode ocorrer durante a gestação, no parto ou até mesmo no pós-parto, que leva ao aparecimento de lesão cerebral irreversível, comprometendo funções cognitivas, auditivas, visuais, motoras ou emocionais.

A turma os recebeu muito bem. Estávamos todos muito curiosos e cheios de expectativas diante daquela experiência. Jackson estava no 7º ano, lia e escrevia com certa dificuldade e sempre dava sua opinião nos assuntos abordados nos encontros. Jhonathan cursava o 1º ano, estava ainda sendo alfabetizado. Não participava muito dos debates, mas gostava de ver os vídeos e ajudar em tudo que fosse necessário, desde apagar a luz até “monitorar” os colegas durante a execução de uma atividade.


Gostaríamos que você compartilhasse com os leitores do site do Aprendiz Legal experiências interessantes do seu trabalho com o Jackson e o Jhonathan.

Para mim, a situação mais gratificante e estimulante foi durante a elaboração de um projeto que realizamos no Módulo Básico. A proposta era apresentar uma palestra para crianças de uma escola pública sobre o meio ambiente. Os jovens foram divididos em duplas e deveriam pesquisar sobre o tema. Jackson formou uma dupla com uma colega “normal”. Eu a orientei para que o auxiliasse, mas intimamente, pensava que sua participação seria apenas simbólica.

No encontro seguinte, a colega de Jackson não compareceu, mas ele chegou animado, dizendo que havia pedido ajuda de uma colega da empresa para pesquisar sobre o “Eco óleo” e queria que eu visse a apresentação que ele havia preparado, para fazer as correções necessárias. Ele passou o encontro todo ansioso para me mostrar seu trabalho. Liberei todos um pouco mais cedo e fui ver o que ele tinha preparado.
Fiquei de “queixo caído” com a qualidade da pesquisa e a vontade de fazer a apresentação. Ele esqueceu e errou a fala várias vezes, mas sempre voltava do começo e disse que só iria embora quando conseguisse falar tudo certinho. Pensei que ele não seria capaz, mas ele me mostrou que eu estava completamente enganada. E como fiquei feliz por estar enganada...


Qual foi o maior desafio que você enfrentou no processo de inclusão dos aprendizes?

A situação mais desafiadora foi o fato de não ter conseguido integrar a família  do Jackson em seu processo de aprendizagem. É nítida a importância da família no apoio ao desenvolvimento dos aprendizes. Passei dois anos tentando contato com a família para tentar entender melhor a história dele, mas ninguém nunca aparecia nas reuniões. O pai não assumiu a paternidade e a mãe foi embora quando ele ainda era criança. Foi criado pela avó, que mais tarde veio a falecer. Uma tia era sua tutora, mas eu nunca consegui conversar com ela. Não ter uma família estruturada o incomodava bastante.

No começo de 2011, a turma concluiu o programa. Fizemos um encerramento na empresa com a presença dos supervisores, das famílias e amigos. Ao ser perguntado sobre a importância do programa em sua vida, Jhonathan respondeu: “A empresa me ofereceu trabalho, reconhecimento, as amizades e também um plano de saúde, cesta básica e o salário para eu comprar as minhas coisas”. O jovem conseguiu uma oportunidade em sua área e foi efetivado. A empresa aguarda a oportunidade de uma vaga para Jackson.


Que aprendizados você pôde obter desta experiência?

O que eu aprendi com eles? Aprendi que não querem ser tratados como diferentes ou coitadinhos. Aprendi que o mais importante no meu trabalho não é ensinar os jovens a fazer relatórios ou preencher planilhas. O mais importante é ensinar a respeitar o outro, compreender seus limites e contribuir para o seu crescimento.

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